Lições do Chile
por Vinicius Wu
O Chile não é o Brasil. Eis uma advertência óbvia, porém, não inútil para aqueles que pretendem analisar as eleições presidenciais chilenas e estabelecer algum tipo de conexão com o Brasil. Alguns analistas mais afoitos já se arriscam a dizer que a derrota da Concertacion atesta que a transferência de popularidade não é automática e isso valerá para o Brasil em outubro deste ano – uma evidente simplificação. Mas, afinal, o que as eleições do Chile tem a nos ensinar? E, aliás, será mesmo possível estabelecer alguma conexão entre os dois processos?

É preciso demarcar a distinção entre a coalizão que governa o Chile e a frente política que sustenta o governo do Presidente Lula para estabelecer conexões entre as eleições chilenas e as brasileiras, em outubro
Iniciemos esta reflexão apontando as possíveis similitudes entre as realidades brasileira e chilena. No Chile, Eduardo Frei candidatou-se pela frente denominada Concertacion que, atualmente, governa o país e cuja presidenta, Michele Bachelet, possui aprovação próxima a 80 %. Frei havia governado o país de 1994 a 1999. A Concertacion é uma aliança entre os socialistas e a democracia-cristã, que tem origem no plebiscito de 1988, no qual o povo chileno disse não ao ditador Augusto Pinochet. Alguns diriam que a trajetória do campo governista no Chile aproxima-se daquele esboçado pela esquerda brasileira neste período pré-eleitoral: um governo com altíssimos índices de aprovação apresenta uma candidatura pouco carismática e dependente, portanto, da transferência de popularidade do atual governante.
Outra possível coincidência reside no fato de que nas eleições chilenas – tal como deve ocorrer no caso brasileiro – também foi apresentada uma candidatura dissidente do campo da esquerda, que apresentou um discurso renovador. Marco-Enriquez Ominami, ex-socialista, terminou o primeiro turno com 20% dos votos apresentando-se como um político desvinculado de “compromissos com o passado”. Estive no Chile, ainda durante a campanha do primeiro turno, e pude constatar que Ominami, de fato, empolgou uma expressiva parcela de setores médios, em especial jovens, desencantados com os limites da Concertacion. Alguém poderia dizer, então, que Marina Silva poderá cumprir o mesmo papel que Ominami realizou nas eleições chilenas.
Com grande boa vontade apontaria uma ultima “semelhança”. A Concertacion sentiu na pele o desgaste pelos vinte anos de hegemonia política – aquilo que alguns cientistas políticos costumam chamar “desgaste material”. E, além disto, Eduardo Frei não foi capaz de apresentar um discurso capaz de empolgar o eleitorado com uma clara promessa de futuro para o Chile. A defesa do legado da Concertacion não foi suficiente para organizar uma campanha vitoriosa. De alguma forma, pode-se sugerir que o PT corre o risco de prender-se à mera defesa dos oito anos de governo Lula e com isso repetir o mesmo erro da esquerda chilena.
É preciso analisar com bastante cautela estes postulados. Tratam-se de realidades políticas extremamente distintas. Passemos, então, à análise de cada um dos pontos suscitados.
Em primeiro lugar, seria preciso demarcar a distinção entre a coalizão que governa o Chile e a frente política que sustenta o governo do Presidente Lula. A Concertacion é fruto de uma espécie de “compromisso histórico” chileno firmado entre os socialistas e a democracia cristã, ainda na década de oitenta. Este acordo político de longo prazo possibilitou ao Chile – durante os anos de hegemonia da Concertacion – ostentar um crescimento econômico de 5,5% ao ano, permitindo que o país atravessasse as diversas crises internacionais dos anos 90 (Mexicana, Asiática, Russa etc.) sem grandes abalos. Avanços importantíssimos foram obtidos na área social. A pobreza foi reduzida significativamente e hoje atinge apenas 13% da população chilena – índice mais baixo da América Latina, segundo a CEPAL. O Chile ocupa a 44ª posição no Ranking mundial de Desenvolvimento Humano, é líder entre os países latino-americanos. Portanto, trata-se de um processo de longo prazo, que organizou uma vitoriosa coalizão, responsável pelos inúmeros avanços obtidos após a derrota do nefasto regime de Pinochet. Um processo bem distinto daquele que possibilitou a vitória de Lula em 2002 e sua reeleição em 2006, no qual uma frente política, com limitados compromissos programáticos, vem assegurando uma experiência exitosa de governo, em meio a uma delicadíssima operação de sustentação política, que nem sempre é bem sucedida no parlamento.
Além disto, seria interessante recordarmos que Eduardo Frei já governou o Chile e a memória de seu governo, ainda bastante viva, não está entre os principais baluartes da Concertacion. Frei é da democracia cristã e parte do eleitorado de Ominami, no primeiro turno, era composto por eleitores identificados com os socialistas que não sentiram-se representados pela atual candidatura governista.
E, desta forma, passo a comentar a candidatura de Ominami. Será muito difícil para Marina reproduzir um desempenho semelhante no Brasil. O jovem candidato chileno, filho do lendário Miguel Enriquez, morto em combate nas ruas de Santiago, rompeu com os socialistas “à esquerda” e ao contrário de Marina não caminhou em direção à centro direita. Foi um candidato que soube situar-se por fora do establishment. Esta foi, ao mesmo tempo, sua principal virtude e seu maior defeito, pois, esta trajetória não o permitiu organizar um discurso coerente no segundo turno. Seu tímido apoio ao candidato da Concertacion no segundo turno, não foi acompanhado por seu eleitorado. Ominami, na prática, apontou mais para a rejeição de Sebastian Piñera do que para o apoio efetivo à Eduardo Frei. Talvez aí tenhamos um elemento a ser observado no pleito brasileiro. Marina Silva pode cumprir um papel de linha auxiliar da candidatura Serra no primeiro turno e tornar irreversível a adesão de seu eleitorado ao candidato tucano em um eventual segundo turno. Mas esta também é apenas uma especulação.
Por fim, podemos considerar a hipótese de que a candidatura do PT limite-se a defender o legado do governo Lula deixando, assim, de acenar para o futuro com uma plataforma consistente. Ora, este foi, realmente, um dos pontos fracos da candidatura de Eduardo Frei. Mas a renovação necessária do discurso da Concertacion é algo bem mais complexo do que a organização de um programa de governo renovado pelo PT em 2010. Oito anos não são vinte! E, além disto – e talvez mais importante – é preciso reconhecer que a grande missão histórica a que se propôs a Concertacion (assegurar e consolidar a transição democrática no Chile) foi cumprida. A renovação, portanto, desta aliança passa por uma profunda reflexão a respeito do futuro da própria Concertacion, que, por sinal, pode dissolver-se com a adesão de parte da democracia-cristã ao governo de Piñera.
É uma realidade bem diferente do que ocorre no Brasil, onde ainda existe um longo percurso a ser trilhado pelas forças progressistas até a efetiva redução das desigualdades sociais e a realização de uma democracia substancial. E o grande desafio do PT e demais partidos que compõem a coalizão governista no Brasil será, exatamente, elucidar qual o caminho para o cumprimento efetivo destas tarefas. A simples defesa das conquistas populares sob o governo Lula não será suficiente. Esta advertência é válida, mas o campo popular possui todas as condições de enfrentar o desafio de apontar o próximo passo da Revolução democrática em curso no Brasil.
Creio que um exame acurado do processo eleitoral chileno nos permita rejeitar simplificações e transposições mecânicas e foi isto o que procurei demonstrar neste breve artigo. O desejo de setores da oposição em identificar na derrota da Concertacion “sinais” para as eleições de outubro, não se sustenta após uma análise sóbria do que ocorre no Chile e no Brasil. Não passa, portanto, de um desejo. Apenas isso.